Liberdade de imprensa nas Américas: em vez de proteger os jornalistas, as autoridades os ameaçam

 

Imagem: Divulgação

A liberdade de imprensa nas Américas continua a se deteriorar, perdendo 14 pontos no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa desde 2022 — uma tendência de queda semelhante à observada nas duas regiões do mundo mais difíceis para o jornalismo, a Europa Oriental e a Ásia Central (EECA), assim como o Oriente Médio e o Norte da África (MENA).

O jornalismo nessa região há muito tempo enfrenta duras dificuldades devido à fragilidade econômica do mercado de mídia e, na América Latina, à violência persistente contra a imprensa. Hoje, em 2026, observa-se uma tendência marcante entre as autoridades de toda a região de agravar ainda mais essas pressões por meio de uma retórica hostil, restrições jurídicas e administrativas, acesso limitado à informação pública e instrumentalização dos sistemas jurídicos para sufocar a cobertura jornalística. O jornalismo é criminalizado, silenciado por processos judiciais destinados a calá-lo e, nos países afetados pela violência dos cartéis, tornado cada vez mais perigoso pela ausência de proteção aos profissionais da informação.

Nos Estados Unidos (que ocupam a 64ª posição entre 180 países e territórios), os jornalistas, que já enfrentavam dificuldades econômicas e uma crise de confiança do público — entre outros desafios —, agora também precisam lidar com o uso sistemático das instituições do Estado como arma pelo presidente Donald Trump, especialmente por meio de cortes orçamentários em emissoras públicas como NPR e PBS, interferências políticas na propriedade dos meios de comunicação e investigações com motivação política contra jornalistas e veículos de imprensa em desgraça. Desde seu retorno ao poder, os jornalistas também passaram a ser alvo durante manifestações, o que reflete uma deterioração mais ampla que constitui uma das crises mais graves para a liberdade de imprensa na história moderna dos Estados Unidos.

Argentina (98ª) perdeu 11 posições em 2026 sob o presidente Javier Milei, aliado de Trump, e caiu mais de 69 posições no ranking desde 2022 devido ao aumento da hostilidade institucional contra a imprensa e à violência contra jornalistas que cobrem manifestações. El Salvador (143ª, -8 posições em 2026) também manteve sua tendência de queda, perdendo 74 posições desde a chegada ao poder, em 2019, do presidente Nayib Bukele, outro líder alinhado a Trump. Seu governo intensificou a criminalização do jornalismo, especialmente por meio da lei sobre agentes estrangeiros de 2025, que obriga pessoas e organizações que recebem financiamento estrangeiro a pagar um imposto de 30% sobre essa receita e concede ao governo amplos poderes para suspender ou dissolver entidades consideradas em desacordo. Na prática, essa lei serve como uma ferramenta direta para silenciar a dissidência e, combinada com processos judiciais abusivos, forçou dezenas de jornalistas ao exílio em apenas alguns meses.

Nos países afetados pela violência dos cartéis, como o México (122ª), há uma necessidade urgente de medidas de proteção sólidas para garantir a segurança da imprensa — no entanto, as autoridades de muitos Estados apenas agravam a situação. O Equador (125ª), que registrou a maior queda da região (-31), enfrenta uma erosão sem precedentes da segurança dos jornalistas, à medida que a violência ligada ao crime organizado se espalha e autoridades públicas cada vez mais hostis aumentam a pressão sobre a imprensa. O mesmo ocorre no Peru (144ª, -14), onde quatro jornalistas foram assassinados em 2025. O Peru perdeu 67 posições desde 2022, em grande parte devido a uma série de iniciativas legislativas alarmantes, assédio judicial e campanhas de difamação contra os meios de comunicação independentes.

É preocupante constatar que algumas dessas tendências se assemelham a formas mais tradicionais de censura — repressão estatal e ataques diretos — que predominam em países como Nicarágua (168ª), Cuba (160ª) e Venezuela (159ª), onde a liberdade de imprensa permanece em seu nível mais baixo da região.

Por outro lado, alguns países mostram sinais de melhora ou relativa estabilidade. O Brasil (52ª) ganhou 58 posições desde 2022. A Colômbia (102ª) e o Uruguai (48ª) registraram avanços, assim como a Guatemala (128ª), apesar da perseguição contínua a jornalistas como Jose Rubén Zamora. O Canadá (20ª) tornou-se o líder regional após o recuo de Trinidad e Tobago (32ª), em parte devido à deterioração da situação econômica e política. A RSF observou uma tendência semelhante em Belize (66ª), onde o descontentamento dos jornalistas com suas condições de trabalho continua a crescer.

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