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| Ilustração gerada com I.A. |
Caros leitores, acredito que a maioria de vocês já tenha ouvido aquela frase que se tornou quase um mantra nos últimos anos: “use protetor solar”.
A recomendação parece óbvia hoje, mas nem sempre foi assim. Até relativamente pouco tempo atrás, era comum associar o protetor solar exclusivamente aos dias de praia, às férias ou àquele passeio em que passaríamos algumas horas debaixo do sol. Em parte, dá para entender o motivo.
O acesso à informação era muito menor do que é hoje e os protetores solares também eram diferentes. Muitos tinham fórmulas mais espessas, pegajosas, difíceis de espalhar e que deixavam um resíduo branco bastante evidente sobre a pele. Não eram exatamente produtos que despertavam vontade de usar todos os dias.
De lá para cá, muita coisa mudou.
Hoje encontramos protetores solares para praticamente todos os gostos e tipos de pele: fluidos, em gel, cremosos, com acabamento seco, com cor, sem cor, específicos para pele oleosa, para pele seca, para quem pratica esportes e até versões que podem ser incorporadas à maquiagem.
Os filtros solares — os ingredientes responsáveis pela proteção contra a radiação ultravioleta — também evoluíram bastante. O desenvolvimento de novos filtros orgânicos, novas combinações e diferentes tecnologias de formulação permitiu criar produtos mais leves, espalháveis e cosmeticamente agradáveis.
E isso é ótimo.
Mas existe uma pequena ironia nessa história: quanto mais agradável ficou usar protetor solar, mais fácil também ficou aplicar pouco demais.
Os protetores mais antigos, geralmente mais espessos, acabavam formando películas relativamente grossas sobre a pele. Já os produtos modernos podem formar filmes muito mais finos e praticamente imperceptíveis. É justamente aí que aparece um problema: o fator de proteção solar — o famoso FPS estampado na embalagem — é determinado em testes padronizados realizados com uma quantidade específica de produto sobre a pele.
Essa quantidade é de 2 mg de produto por centímetro quadrado de pele.
Pode parecer pouco, mas não é. Para um adulto, a quantidade necessária para cobrir todo o corpo exposto pode chegar a aproximadamente 30 a 35 mL por aplicação, dependendo da área corporal. Uma forma prática de visualizar essa quantidade é a chamada “regra da colher de chá”, que distribui aproximadamente nove colheres de chá para as diferentes regiões do corpo. Para o rosto, pescoço e orelhas, a quantidade é muito menor do que uma colher de sopa inteira — algo em torno de meia colher de chá é uma referência prática frequentemente utilizada.
E aqui está um detalhe importante: usar metade da quantidade não significa necessariamente receber metade da proteção. A relação entre quantidade aplicada e proteção não é simples. Estudos demonstram que a redução da quantidade aplicada pode provocar uma queda desproporcional na proteção, fazendo com que o FPS efetivamente recebido seja muito menor do que aquele indicado no rótulo.
Ou seja: não basta usar protetor solar. É preciso usar uma quantidade suficiente.
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| Ilustração didática da internet. |
Mas por que essa quantidade toda é tão importante?
Primeiro, porque ninguém quer acelerar o envelhecimento da própria pele. A radiação ultravioleta é um dos principais fatores externos associados ao fotoenvelhecimento — aquele conjunto de alterações que inclui manchas, perda de elasticidade e formação de rugas. E temos evidências de que o uso regular de protetor solar ajuda, de fato, a retardar esse processo.
Só que a exposição solar não deixa consequências apenas na aparência da pele. Ela também está relacionada a problemas de saúde que vão muito além das rugas e das manchas.
O câncer de pele é o câncer mais frequente no Brasil e corresponde a cerca de 30% dos tumores malignos registrados no país, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A exposição à radiação ultravioleta é um dos principais fatores de risco para esses tumores, e a fotoproteção é uma das estratégias importantes para reduzir a exposição.
E não é apenas o câncer de pele que está relacionado à exposição solar. A radiação ultravioleta participa do desenvolvimento e da piora de diversas condições dermatológicas. O melasma, por exemplo, pode ser agravado pela exposição à radiação ultravioleta e também pela luz visível, razão pela qual protetores com cor podem ser particularmente interessantes em alguns casos. Outras doenças e condições fotossensíveis, como algumas formas de lúpus e determinadas dermatites, também podem exigir cuidados rigorosos com a exposição solar.
Mas é importante não transformar o protetor solar em uma espécie de produto milagroso: ele faz parte de uma estratégia de fotoproteção, que também inclui sombra, roupas, chapéus e óculos com proteção UV.
Agora, falando sério: vale a pena ficar sem usar?
Não.
Existe, porém, uma questão que não podemos ignorar: o custo.
Eu sei que protetor solar não é barato. E, quando passamos a quantidade necessária, aquele frasquinho de 40 ou 60 mL que compramos na farmácia realmente acaba muito mais rápido. Isso pode ser um problema especialmente para quem precisa utilizá-lo diariamente e em áreas extensas do corpo.
É uma contradição importante: recomendamos que as pessoas usem protetor solar, mas nem sempre discutimos o quanto essa recomendação pode pesar no bolso.
Mas existe outra questão envolvida nessa conta: não é só a quantidade que determina a experiência com o protetor. O tipo de filtro e a forma como ele é formulado também fazem diferença. É isso que explica por que dois produtos com o mesmo FPS podem ter texturas, acabamentos e sensações tão diferentes na pele.
De maneira simplificada, os filtros solares podem ser divididos em orgânicos e inorgânicos. Os chamados filtros “químicos” são, tecnicamente, filtros orgânicos; os chamados “físicos” ou “minerais” são filtros inorgânicos.
Entre os filtros inorgânicos mais conhecidos estão o dióxido de titânio e o óxido de zinco. Durante muito tempo, esses ingredientes foram associados àquela imagem clássica do protetor solar branco e espesso. Hoje, porém, existem tecnologias que permitem produzir partículas menores e formulações muito mais agradáveis, reduzindo bastante esse efeito esbranquiçado.
E há uma correção importante em relação a uma ideia bastante difundida: os filtros minerais não funcionam simplesmente como um “espelho” que reflete toda a radiação. Eles também absorvem parte da radiação UV, além de poderem espalhar e refletir parte dela.
Já os filtros orgânicos absorvem a radiação ultravioleta e a transformam em uma forma de energia de menor impacto para a pele, principalmente calor.
Na prática, a diferença entre eles é muito mais complexa do que a antiga divisão entre “físico” e “químico” faz parecer. Muitos produtos modernos, inclusive, combinam diferentes filtros para alcançar uma proteção ampla e uma textura agradável.
Na prática, porém, nenhum protetor fica intacto na pele o dia inteiro.
Ao longo do dia, a camada aplicada sobre a pele sofre com suor, água, atrito, toalhas, mãos e outros fatores que podem removê-la ou alterar sua uniformidade. Por isso, quando estamos expostos ao sol, recomenda-se reaplicar o protetor aproximadamente a cada duas horas e também após nadar ou suar intensamente, sempre respeitando as instruções específicas do produto.
E a maquiagem?
Esse é um dos argumentos que mais ouço: “Mas eu já estou maquiada. Vou ter que tirar tudo para passar protetor novamente?”
Felizmente, a indústria cosmética também percebeu esse problema. Hoje existem produtos com FPS incorporados à maquiagem, como bases, pós, blushes e protetores com cor. Eles podem ser aliados interessantes para facilitar a rotina, embora seja importante lembrar que *maquiagem com FPS não deve ser automaticamente considerada equivalente à aplicação adequada de um protetor solar*, especialmente porque a quantidade de maquiagem utilizada normalmente é muito menor do que aquela usada nos testes de FPS.
Outra dúvida comum diz respeito ao tempo de espera antes de sair ao sol. A recomendação geral é aplicar o protetor antes da exposição solar — muitas orientações sugerem cerca de 15 minutos de antecedência — e seguir as instruções do fabricante. Não é necessário pensar nisso como uma característica exclusiva dos filtros “químicos”: a orientação de aplicar previamente está relacionada ao estabelecimento de uma camada uniforme e à própria rotina de proteção.
No fim das contas, talvez o mais importante seja entender que protetor solar não é apenas um produto cosmético.
Ele também é uma ferramenta de prevenção.
E, curiosamente, a tecnologia que tornou os protetores solares tão agradáveis de usar criou um novo desafio: justamente porque eles podem ser leves, invisíveis e confortáveis, podemos esquecer que existe uma quantidade mínima necessária para que aquela proteção indicada no rótulo faça sentido.
Então, caro leitor, da próxima vez que alguém disser “use protetor solar”, talvez você possa pensar um pouco além da recomendação automática.
Escolha um produto que você goste de usar. Use uma quantidade adequada. Reaplique quando necessário. E, sempre que possível, combine o protetor com outras formas de proteção contra o sol.
Porque a melhor fotoproteção não é necessariamente aquela que fica mais bonita na prateleira.
É aquela que você consegue usar — corretamente e com regularidade — na vida real.


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