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| Imagem retirada da internet |
Sessenta anos depois de invadir as tardes de domingo com terninhos sem gola e refrãos em inglês malfalado, a Jovem Guarda continua sendo o fenômeno que a crítica nunca soube exatamente onde guardar
Domingo, 16h30. No auditório da TV Record, na rua da Consolação, a plateia é jovem — a maioria com menos de vinte anos — e está em polvorosa antes mesmo de as luzes se apagarem. Lá fora, São Paulo segue sua rotina de domingo comum. Ali dentro, alguma coisa está prestes a mudar de nome. O programa que vai ao ar se chama Jovem Guarda, uma expressão que ninguém na plateia sabe que veio de um texto de Lênin sobre a velha guarda do partido ter que ceder lugar à nova. A ironia histórica passa batida. Ninguém ali quer saber de política soviética. Quer saber de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa entrando no ar, ao vivo, com aquele sorriso de quem sabe que está prestes a virar o programa mais comentado do país.
Foi assim, em 22 de agosto de 1965, que nasceu — sem que ninguém pudesse prever a dimensão do que estava começando — o fenômeno que completa 60 anos e que, até hoje, divide opiniões entre quem o trata como curiosidade retrô e quem entende que ali se inventou boa parte do que o Brasil chama de cultura jovem.
Um país que ainda estava se acostumando com a televisão
O Brasil de 1965 vivia sob um regime militar recente, instalado no ano anterior, num momento em que a televisão ainda engatinhava como meio de massa — a TV Record havia recém-inaugurado seus estúdios modernos na Consolação e brigava taco a taco com a TV Excelsior pela audiência paulistana. Foi, aliás, um imprevisto de grade que abriu espaço para o programa: um desentendimento entre a Record e as entidades do futebol paulista tirou da emissora o direito de transmitir os jogos de domingo à tarde, horário nobre então ocupado pela narração de Raul Tabajara. Alguém precisava preencher aquele vazio. A resposta apareceu na forma de um "show de música juvenil", inicialmente cogitado sob o nome Festa de Arromba — título de uma canção de Erasmo Carlos —, descartado por soar datado rápido demais.
O nome definitivo veio de uma sugestão do publicitário Carlito Maia, e a formação inicial nem era a que ficou famosa: cogitou-se colocar Celly Campello, a "rainha do rock" que dominara o final dos anos 1950, ao lado de Roberto Carlos. Ela recusou o convite — havia deixado os palcos para se casar — e o lugar acabou com Wanderléa, cantora que já vinha de vitórias em concursos de calouros de rádio e de um compacto lançado em 1962.
O resto é conhecido, mas vale reconstituir o clima: em menos de três meses no ar, a audiência do programa já passava de três milhões de espectadores só em São Paulo, segundo dados divulgados à época. A Record passou a transmitir ao vivo para a capital paulista e em fita para o Rio e Belo Horizonte. O Brasil inteiro, de repente, tinha um programa de domingo à tarde comandado por gente da própria idade do público — coisa rara até então, num país de televisão ainda formal, apresentadores de terno completo e discurso empostado.
Iê-iê-iê, guitarra elétrica e um Beatles qualquer
Chamavam de iê-iê-iê antes de chamarem de Jovem Guarda — nome emprestado do estribilho onipresente nas canções de influência inglesa e americana que tomavam o rádio. A referência mais óbvia eram os Beatles: cabelo comprido para os padrões da época, terninhos sem gola, uma estética que ainda soava ousada num Brasil de costumes conservadores. Mas a Jovem Guarda também bebia do rock americano, do rhythm and blues, do rockabilly, e principalmente da prática — já bastante comum na indústria fonográfica brasileira desde o fim dos anos 1950 — de verter sucessos estrangeiros para versões em português, muitas vezes assinadas pelo próprio Erasmo Carlos, que se tornaria uma espécie de tradutor-mor daquele repertório.
Roberto Carlos já não era estreante quando o programa foi ao ar: havia estourado em 1963 com uma versão de "Splish Splash", do americano Bobby Darin, adaptada por Erasmo. O sucesso da dupla, então, não nasceu com o programa — o programa é que veio para amplificar um movimento que já pulsava nos bailes e nas rádios AM. O que a televisão fez foi dar rosto, corpo e rotina semanal a esse movimento, transformando cantores em figuras domésticas, presentes na casa das famílias todo domingo, na hora do almoço que se estendia.
E não eram só os três. Em torno do trio, um elenco generoso circulava pelo palco da Record e por programas concorrentes: Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, The Fevers, Ronnie Von, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Jerry Adriani, Martinha, Leno e Lilian, Os Vips, Demétrius, entre tantos outros que hoje sobrevivem mais em memória afetiva do que em regravações constantes. Muitos desses nomes tiveram carreiras curtas, ofuscadas pelo brilho da trinca principal, mas ajudaram a formar o que se tornaria, décadas depois, um cânone paralelo da música popular brasileira — um cânone que a crítica especializada demorou a levar a sério.
Minissaia, casaco de plumas e um vocabulário novo
A Jovem Guarda não ficou restrita ao som. Ela inventou um jeito de se vestir, de falar e de se portar que hoje soa quase caricato, mas que, naquele momento, representava ruptura real com o comportamento esperado da juventude brasileira. Roupas extravagantes, casacos com plumas, cores fortes, a minissaia como símbolo de liberdade para as moças, o cabelo masculino um pouco mais comprido do que a família aprovava. Expressões como "é uma brasa, mora?", "barra limpa" e "é papo firme" saltaram das letras das canções direto para o vocabulário adolescente, criando um dialeto próprio que separava quem estava "por dentro" de quem não estava.
Carros também entraram nessa equação — não à toa, uma das canções mais lembradas do repertório fala de correr pelas ruas num Jaguar. A ideia de juventude que a Jovem Guarda ajudou a construir estava amarrada ao consumo: discos, roupas, brinquedos, produtos de banheiro assinados por artistas. A loja de brinquedos Estrela chegou a lançar bonecas de Wanderléa e Erasmo Carlos; Erasmo teve um restaurante batizado de Tremendão, seu próprio apelido. O público infantil, hoje pouco lembrado nessa história, também consumia o fenômeno com entusiasmo — sinal de que a Jovem Guarda operava, desde cedo, como uma máquina de produtos tanto quanto como movimento musical.
Essa proximidade com a indústria — discos, patrocínios, merchandising, uma gravadora que sabia exatamente como lançar um single para coincidir com o clima do programa — é parte do que tornou o fenômeno tão eficiente e, ao mesmo tempo, tão vulnerável às acusações de alienação que viriam a seguir.
A guerra fria da MPB
Do outro lado da grade da própria Record, um programa concorrente ganhava força: O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina, vitrine de uma música popular brasileira que se via como mais elaborada, mais "séria", politicamente mais engajada num momento de repressão crescente. A emissora, esperta, alimentava a rivalidade — dava audiência para os dois lados. De um lado, uma bossa nova que se politizava e caminhava para o que se chamaria de MPB; do outro, o iê-iê-iê acusado de copiar fórmulas estrangeiras e de manter a juventude distraída enquanto o país vivia sob censura.
O episódio mais simbólico dessa disputa foi a chamada passeata contra a guitarra elétrica, em 1967, quando um grupo de artistas ligados à MPB desfilou pelas ruas cantando o hino nacional em protesto contra a "americanização" da música brasileira. Nara Leão e Caetano Veloso recusaram-se a participar, observando a cena de longe, da janela de um hotel — e comentaram depois que aquilo lembrava mais uma manifestação integralista do que um protesto artístico. A própria passeata, sabe-se hoje, foi também uma armação publicitária da emissora para promover o programa de Elis, que perdia terreno para a Jovem Guarda.
As críticas, porém, eram reais e vinham de vários lados. Ao voltar de uma excursão internacional, Elis Regina chegou a declarar que aquele "iê-iê-iê" era uma droga que deformava a mente da juventude — resumo perfeito do desconforto que o fenômeno provocava entre quem via na música popular brasileira uma missão mais nobre do que fazer dançar uma plateia adolescente. Curiosamente, foi outra artista ligada à MPB, Maria Bethânia, quem teria chamado a atenção de Caetano Veloso para a vitalidade daquele universo — episódio que ajuda a explicar por que, anos mais tarde, a Tropicália trataria a Jovem Guarda não como inimiga, mas como material bruto a ser reciclado.
As mulheres de um universo desenhado por homens
É tentador reduzir a presença feminina na Jovem Guarda a Wanderléa, a "Ternurinha" que dividia o microfone com Roberto e Erasmo, o "Tremendão". Mas o programa e o movimento tinham outras figuras que hoje merecem revisão: Martinha, autora e intérprete de canções próprias num momento em que compor não era exatamente incentivado às mulheres do gênero; Rosemary; e artistas que circulavam por programas concorrentes tentando repetir a fórmula, como Silvinha, contratada pela TV Excelsior para compor um elenco que imitasse a Record.
Ainda assim, o universo era desenhado predominantemente por homens — compositores, produtores, diretores de programa, donos de gravadora. As mulheres da Jovem Guarda representavam, ao mesmo tempo, uma ruptura de comportamento — a minissaia, a liberdade de aparecer sorrindo na TV sem a rigidez esperada de uma "moça de família" — e uma permanência de hierarquias antigas, em que o espaço de composição e de decisão artística seguia concentrado nos parceiros masculinos. É uma contradição que a leitura contemporânea do fenômeno não deveria esconder atrás da nostalgia.
O fim de um programa, a permanência de uma ideia
O programa foi ao ar até o início de 1968, quando a fórmula já dava sinais de esgotamento e o país entrava numa fase ainda mais dura de repressão política, que tornaria inviável a leveza despreocupada que era a marca registrada daquelas tardes de domingo. Roberto Carlos seguiu carreira solo de projeção internacional; Erasmo Carlos se consolidou como um dos maiores compositores populares do país, atravessando décadas sem nunca deixar de escrever; Wanderléa migrou para outros caminhos artísticos, incluindo o teatro. A maioria dos demais nomes do elenco enfrentou o que costuma acontecer a quem viveu um fenômeno de mídia intenso e curto: uma vida inteira tentando repetir, ou justificar, aqueles três anos de auge.
Mas alguma coisa ficou. A ideia de que a juventude brasileira poderia ter voz própria na televisão, com ídolos da mesma geração do público, não se dissolveu com o fim do programa — ela se tornou padrão. Décadas de programas musicais dominicais, de formatos voltados a adolescentes, de indústria fonográfica pensando o público jovem como categoria de consumo específica, devem alguma coisa àquela tarde de agosto de 1965. A própria Tropicália, que tanto se definiu em oposição ao iê-iê-iê, acabou incorporando sua irreverência pop e sua desenvoltura com a guitarra elétrica — provando que a fronteira entre os dois campos era mais porosa do que a disputa televisiva fazia parecer.
Nostalgia não é a palavra certa
Há um risco em tratar a Jovem Guarda apenas como relíquia afetiva, matéria-prima de programa de rádio AM e festa temática. O movimento também foi, sem contradição nenhuma nisso, um produto muito bem calibrado de uma indústria cultural em expansão — gravadoras, patrocinadores, uma emissora de TV que sabia exatamente como transformar audiência em receita. As letras, em boa parte, evitavam qualquer atrito com a censura, e é justo perguntar até que ponto essa neutralidade política era escolha estética ou simples cautela comercial num país sob regime autoritário.
Ao mesmo tempo, seria preguiçoso resumir o fenômeno a alienação pura. Pesquisadores que se debruçaram sobre o período — caso do jornalista e pesquisador Marcelo Fróes, autor de um livro dedicado ao tema — apontam que o tempo revelou força autoral em nomes que iam muito além de versões de sucessos estrangeiros, e que a produção da Jovem Guarda tem hoje um lugar consolidado na história da canção brasileira, ao lado — não abaixo — da bossa nova e da MPB que a hostilizaram.
Por que ainda vale a pena olhar para trás
Sessenta anos depois daquele domingo na Consolação, é fácil rir das minissaias, dos casacos de pluma, das gírias que soam hoje quase infantis. Mas por trás da estética datada está uma das primeiras vezes em que o Brasil viu sua juventude se representar a si mesma na televisão, com voz, roupa e trilha sonora próprias, sem pedir licença ao mundo adulto. Isso não resolve as contradições do movimento — nem deveria. Um fenômeno pensado por uma emissora para preencher um buraco na grade de domingo, movido a patrocínio e merchandising infantil, dificilmente seria puro em suas intenções.
O que permanece, afinal, não é a pureza — é a fissura que aquele programa abriu. Depois da Jovem Guarda, ficou mais difícil pensar em juventude brasileira como simples miniatura do mundo adulto, esperando a vez de crescer. Talvez seja esse o motivo mais honesto para revisitar o fenômeno hoje: não pela nostalgia dos terninhos sem gola, mas porque ali, em meio a versões traduzidas às pressas e refrões que hoje soam ingênuos, uma geração inteira aprendeu que também tinha o direito de fazer barulho.

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